sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CONTO URBANO DE NATAL

ERA A MAIOR EMPRESA QUE JÁ SE OUVIRA FALAR e ela foi chamada ao superior. “Por que eu? O que eu fiz?” Não atinava a razão para falar com alguém que pouquíssimos tinham a honra de conhecer. A apreensão se justificava, pois ela era apenas uma adolescente, embora responsável e madura.

ELE NÃO A RECEBEU PESSOALMENTE, mandou alguém de sua confiança. A missão foi passada e era tão grandiosa que ela sequer pode negar ou aceitar – apenas anuiu tacitamente. Para falar a verdade achava que não tinha entendido tudo. Decidiu que faria por etapas. Afinal a parte mais difícil demoraria um pouco a chegar.

FICOU COM RECEIO DE FALAR AO COMPANHEIRO SOBRE A NOVA FUNÇÃO. “Será que vai me apoiar? Meu tempo será quase todo tomado por este trabalho.” Mas ele apoiou, pois sabia que ela aceitaria a incumbência mesmo que a abandonasse. “Ele é certamente o cara mais mente aberta destes dias.”

ESPEROU E SE PREPAROU. Três quartos de ano se passaram e conforme as instruções o grande dia chegou – mas não sem os entraves de sempre. A informação de que havia crescido aos olhos do chefe vazou e ela, que não era mais que uma menina comum, passou a ser perseguida por pessoas que mal conhecia, mas que já nutriam raiva pela importância do que estava encarregada a fazer.

TEVE QUE SE ESCONDER UM POUCO, mas sabia que não conseguiria levar a situação com a barriga por muito mais tempo. Todos ficariam sabendo, mais cedo ou mais tarde. As dúvidas ainda a afligiam. “Como vou ciceronear o filho do chefe na empresa? E por que ele precisa ser supervisionado por alguém inexperiente como eu, tendo um pai tão poderoso e onipresente?" Perguntas sem respostas, não eram as primeiras... “E benza-me Deus, não serão as ultimas.”

O MENINO CHEGOU E POR ORDEM DO PAI FOI ENCAMINHADO DIRETAMENTE A ELA. “Parece uma criança normal, gente como a gente”. E mesmo atraindo olhos inimigos ela não só acostumou-se a acompanhar o filho do chefe, como passou a amar o menino de procedência nobre. Aliás, o pai dele nunca interferiu em seu trabalho, não diretamente.

ELA MOSTRAVA O QUE SABIA DO NEGÓCIO e começou a desconfiar que seu desafio não fosse passar conhecimento técnico ou o funcionamento dos setores. “Fui designada por outro motivo, pois ele parece saber mais que eu. O que eu posso dar a quem parece ter tudo? Talvez o pai seja muito ocupado e não tenha tempo para ele. Acho que este menino precisa é de amor para conduzir seu conhecimento pelo caminho certo”. E foi o que se propôs a fazer.

MAS DEPOIS DE ALGUNS ANOS ALGO MUDOU. Ele parecia revoltado, passou a desafiar as normas da empresa, seus gerentes e supervisores. Deixou o cabelo crescer e gritava palavras de ordem. Deixou de ouvi-la, suscitava idéias inovadoras, falava coisas que ela nunca tinha ouvido, mas que pareciam ter sentido - e logo despertou a ira dos cargos mais elevados.

DEFENDIA A MERITOCRACIA e, sobretudo, falava de respeito e amor mútuos (veja só, num lugar onde a hierarquia era absolutamente rígida) e lutava pelos diretos dos outros. “Mas por quê? Não vê que desafia o poder? Por que não espera até o dia em que herdará a empresa? Por que se expõe desta maneira? Está tentando chamar a atenção do pai? E este, não vê o que está acontecendo? "A resposta era simples, o garoto não conseguia fechar os olhos à injustiça, não deixava para depois as dores dos mais fracos.

ENQUANTO SUA AFEIÇÃO PELO GAROTO SUPLANTAVA QUALQUER OBJETIVO DA MISSÃO, o pai não se manifestava. Era como se concordasse ou quisesse ver até onde iria. O menino cresceu em tamanho e importância na empresa por seus méritos. Tinha muitos seguidores e ela sabia que membros da diretoria conspiravam por sua demissão. Procurou o chefe varias vezes para falar do assunto, chegava a fazer hora em frente a sua casa, mas o pai não quis lhe ouvir. “O que posso fazer? E por que mesmo parecendo abandonado pelo pai o garoto ainda lhe nutre tanta devoção e amor?”

ENTÃO CHEGOU O DIA QUE ELA TEMIA. O pai havia chamado, teria que deixar a empresa. Ela viu nele novamente um garoto frágil e inquieto. Parecia certo em seguir o conselho do pai, mas havia tristeza em seus olhos. “Ele aprendeu a amar estas pessoas, mesmo as que não gostam dele. Não quer ir embora, mas vai por que é um grande homem eu o deixarei ir, por que ele me ensinou a ser uma grande mulher.”

E ELE FOI. Tão rápido e inexplicavelmente como quando chegou. Despediu-se dos amigos num inesquecível jantar e depois permitiu ser tripudiado pelos ignorantes e invejosos que riram por ser “um cordeirinho mandado do pai”. Os que se achavam superiores ignoravam o fato e os que o conheceram e o ouviram só conseguiram prosseguir porque as palavras do garoto tinham força infinita, além de seus significados.

PARA ELA, que havia passado anos ao seu lado, ele dedicou as duas mais belas palavras do mundo:" Obrigado, mãe!" E então ela finalmente compreendeu sua missão.

ANOS SE PASSARAM E ELA NUNCA MAIS VOLTOU A VÊ-LO. Diziam e ela acreditava que era agora o braço direito do pai. A empresa nunca mais voltou a ser a mesma depois dele, mesmo sem pôr em pratica todas as suas idéias. Todo dia 25 de dezembro ela acende uma vela, ora e deseja: “Feliz aniversário, meu filho.”

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