domingo, 27 de fevereiro de 2011

ENTREVISTA COM O DR. JUAN FLORES geólogo, eng° de Minas, doutor em geociências e pós-doutorado em Meio Ambiente e Materiais Minerais, professor da UFSC e membro do CEPED - Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres, da UFSC – que atende demandas da Defesa Civil catarinense.

Karem Suyan – como atua o CEPED?

Dr. Juan Flores - Ele atende onde houver inundações, deslizamentos, eventos que envolvam a parte ambiental e de desastres naturais nos municípios de Santa Catarina. O município encaminha por meio da sua Defesa Civil o pedido para o estado e este repassa ao CEPED.

KS – O que é possível fazer depois que a tragédia já aconteceu?

Dr. Juan Flores - Fazemos vistorias, delimitamos a área de influencia da área impactada, a amplitude dos deslizamentos e o material deslizado. A partir daí fazemos uma avaliação sobre a possibilidade do evento ocorrer novamente, se é possível fazer uma recuperação da área danificada e avaliamos se é vantagem retirar os moradores do local ou recuperar a encosta.

KS - Este serviço pode ser de prevenção?

Dr. Juan Flores - É o ideal. Todos os 293 municípios de SC têm seu CONDEC - Conselho de Defesa Civil - mas as atuações de cada um e a vontade política do gestor municipal variam muito. O Prefeito deve investir na Defesa Civil, na parte preventiva e também de recuperação das áreas danificadas. Nosso trabalho é bastante amplo e leva em conta uma área maior do que a atingida. Não ficamos restritos ao local, fazemos um mapeamento geomorfológico de toda a encosta e dentro dele um estudo geológico, que se complementam. E o mais importante: nós temos acumulada a experiência de reconhecer áreas onde já ocorreram antigos deslizamentos. Os acontecimentos têm uma historia, são fenômenos naturais de evolução da encosta da serra com o mar. Desde o Rio Grande do Sul ate o sul da Bahia há áreas sujeitas a sofrer este tipo de evento. Faz parte de nossa topografia, do próprio relevo da Serra do Mar somados a questão climática.

KS - Onde já acorreu um evento, fatalmente ocorrerá novamente?

Dr. Juan Flores - Sim. É como um problema genético de família, faz parte da natureza. Mas é bom lembrar que das ações do homem não é só a construção de moradias a responsável por deslizamentos, mas também a abertura de estradas, pelos seus cortes, por exemplo.

KS - Como foi sua experiência no Morro do Baú?

Dr. Juan Flores - Tinha uma equipe que fazia avaliação da estabilidade das moradias, se podiam continuar lá ou não. Eu trabalhei na busca por corpos junto com os bombeiros. Com nossa técnica ajudamos a restringir a área de busca. Fui chamado para delimitar a área e com isso achamos os cinco corpos de uma mesma família que estavam soterrados há quase um mês de trabalho sem sucesso, onde o serviço só podia ser feito manualmente sem ajuda de maquinas. Os relatos são extraordinários, centenas de histórias terríveis.

KS – Fale um pouco do Vale do Araranguá.

Dr. Juan Flores - Ararangua é uma grande planície de inundação, o nome diz tudo. E o que está acontecendo? A natureza segue seu rumo e ali sempre vai ter problema. Alem disso, o Vale do Ararangua todo, esta parte da nossa encosta da Serra do Mar e as grandes bacias do sul mostram evidencias de antigos grandes deslizamentos, já temos um passado geológico. Mas em Ararangua a Defesa Civil é muito bem organizada e há um controle mais eficiente.

KS - Como se dá um deslizamento?

Dr. Juan Flores - Há vários vestígios, alguns visíveis, outros não, alguns de muitos anos, outros com indícios recentes. Mas na hora do deslizamento ele sempre dá um sinal bem perceptível. Geralmente são pequenos deslizamentos precedidos pelo grande que é o fatal. Um deslizamento é tão violento que ouvi o relato de pessoas que foram jogadas a vários metros de distancia, só pelo deslocamento de ar causado do impacto. As pessoas foram lançadas ao chão, atingidas pela lama e sua intensidade foi tão forte que tiveram suas roupas arrancadas do corpo.

KS - Ate onde um deslocamento de terra assim pode ir?

Dr. Juan Flores - Depende de vários fatores, mas no geral o material de uma encosta pode se expandir por alguns metros ou até dois quilômetros de distancia. Mas cada deslizamento tem sua própria historia, não da pra generalizar.

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VALE LEMBRAR QUE AS SOLUÇÕES, a tecnologia, o recurso e pessoal qualificado para ajudar na prevenção estão todos aí e custam muito menos do que a recuperação de uma área atingida por enchente, inundação, deslizamento - e infinitamente menos que qualquer vida.

MAS RESPONSABILIZAR OS PREFEITOS é uma saída legal muito simplista neste momento. Muitas vezes é impossível dissuadir uma família a deixar sua casa durante um evento cataclísmico, imagine retirar assim, no mais, só por que a lei quer.

ENQUANTO NÃO DISPOMOS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL, consciência geral, condições médias de moradia e recursos para deslocar todos os moradores de áreas de risco, é preciso então responsabilizar além do Prefeito, os Vereadores, os Promotores Públicos, os Presidentes de Associações, os Deputados, Ministros, a Presidente e todos aqueles que viabilizam, exigem ou promovem a permanência de pessoas nestes lugares - fornecendo água, energia elétrica, escola, pontes, estradas, linhas de ônibus e uma infinidade de obras e ações que viabilizam e legitimam o que é sabidamente ilegal.

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