terça-feira, 3 de março de 2009








Sinto algo inesperado. Um desassossego no coração que insiste em lembrar somente que ele é um ídolo pessoal e não um amigo e conterrâneo (de Praia Grande). Chego a seu apartamento no centro de Ararangua e sou recebida com carinho por sua esposa Katia e quatro gatos persa e Himalaia - o mais velho deles, “Shine”, que geralmente foge de estranhos me aceita e interage com minha presença. Já me sinto mais tranqüila.

Dizem que a gente se parece com nossos animais de estimação e TADEU SANTOS se assemelha aos felinos por ser observador, penetrante em seu olhar, independente nas suas opiniões, taciturno sem ser melancólico e com pensamentos dificilmente decifráveis. Este cinéfilo, ambientalista, escritor, político apartidário, técnico em edificações, que tem como amor maior sua companheira Kátia e seus dois filhos é um contestador sensível. Alguém que se inspira com a lua e se maravilha com o que o sol representa, que ama a natureza e não acredita em Deus e que por tudo isso tem muito a dizer. Então, sentados na sacada iniciamos esta agradável entrevista:

Karem – Tu nasceste em Praia Grande, quais tuas recordações de lá?

Tadeu – Sempre lembro da minha convivência intensa com o Rio Mampituba. Depois a igreja católica esteve muito presente na nossa vida, embora eles não tenham me convencido, pois eu sempre contestava os Freis, eles ficavam bravos e falavam na missa pra todo mundo saber (risos). Praia Grande também é o Itaimbezinho, o Aparados da Serra, é minha juventude de muitos bailes e brigas. Nos anos 70 a gente tocava Beatles e Elvis na praça e todo mundo achava uma loucura.

Karem - Tua marca em Praia Grande está até hoje na Praça São Sebastião.

Tadeu – Esta foi outra fase, eu estava formado em edificações e já tinha experiência com a Prefeitura de Florianópolis, foi nesta época que teu pai (Ex-Prefeito Ari P. Borges), me chamou para projetar a Praça.

Florianópolis, foi nesta época que teu pai (Ex-Prefeito Ari P. Borges), me chamou para projetar a Praça.

Karem – Sempre foste contestador?

Tadeu – Não, não. Mas fui presidente do Grêmio Estudantil na escola técnica de Torres e cheguei a presidir um congresso da UNE, na efervescência da ditadura militar de 66.

Karem - Nossa, que coragem...

Tadeu - Eu não entendia patavina nenhuma... (risos)

Karem – O cinema tem grande importância na tua vida. Qual o filme mais marcante?

Tadeu – Minha ética, minha moral, minha formação, minha paixão, tudo tem como referencia a sétima arte. O melhor filme, pra mim é cidadão Kane, do Orson Welles.

Karem – Qual o livro que estás lendo hoje e os que influenciaram sua vida?

Tadeu – Hoje estou lendo “Colapso”, de Jared Diamond. “O capital” de Karl Marx eu li duas vezes e não entendi patavinas...(risos) mas ele influenciou o nome do meu filho Marx e mudou pra sempre minha forma de ver o dinheiro e os bens materiais, ate hoje não tenho apego algum por isto. Além disso, me tornei ateu lendo as teorias marxistas. Não acredito em nada que não seja matéria. Mas às vezes, quando vejo toda grandeza do universo, sua engrenagem perfeita, nosso corpo e seu funcionamento e a sincronia de tudo isso fico duvidando se deus realmente não existe.

Karem– Hoje teu nome faz parte do CONAMA, o que isso representa? E como foi a escolha?

Tadeu – CONAMA é o Conselho Nacional de Meio Ambiente, o mais alto conselho da República no setor ambiental, mas com grande influência em todos os outros setores. Ele tem uma composição bem eclética e nós ocupamos 1 das 11 vagas da bancada ambientalista. O CONAMA é responsável por resoluções para licenciamento ambiental, EIA/RIMA, medidas compensatórias e várias resoluções que interferem de forma positiva no nosso dia a dia, protegendo o meio ambiente em busca de conforto, saúde e qualidade de vida para o cidadão. Existe uma eleição a cada dois anos, onde cada uma das cinco regiões do país escolhe dois representantes. Em dezembro a ONG SÓCIOS DA NATUREZA obteve a quarta maior votação do Brasil.

Karem – O que significa uma ONG de Araranguá fazer parte do CONAMA?

Tadeu – O maior beneficiário é o Estado de Santa Catarina como um todo. Nosso trabalho não é para suprir a demanda local, evidentemente que com a dinâmica dos trabalhos poderemos dar relevância a nível nacional sobre a realidade da região.

Karem – E qual é esta realidade?

Tadeu – Hoje se fala muito na Amazônia, porem não foram as queimadas lá que nos colocaram frente ao aquecimento global, foi o uso de combustíveis fosseis. Mas parece que a queima de carvão tem uma insignificância ambiental.

Karem – A produção de carvão da região compromete tanto assim nosso meio ambiente?

Tadeu – Sim. A Jorge Lacerda é a maior usina termelétrica da America Latina e está a poucos quilômetros da gente. O mundo inteiro está dizendo que não se deve mais queimar carvão, apontando energias renováveis como alternativa (eólica, solar ou de bicombustíveis). Enquanto os gaúchos usam a energia eólica, aqui querem fazer uma usina em Treviso, bem na reta dos Aparados da Serra. Não há necessidade de ser assim. 

Karem – Fale sobre uma realização futura.

Tadeu – Eu escrevo sobre o que vejo. Quero lançar um livro com a coletânea de meus textos, que serão organizados historicamente pela Juliana (filha).

Karem – Como tu gostarias de ser visto?

Tadeu - Como um cidadão preocupado com minha sobrevivência e com o meio ambiente onde eu vivo, o que me torna menos egoísta por pensar no coletivo. E é isso que eu tenho feito nos últimos anos.


 

Em seu escritório milhares de livros, fitas e dvd´s contem o maior acervo de imagens da região, que depois de catalogado e editado será de suprema importância histórica para todos.

Ao lado do computador há uma frase em destaque: “NADA SERÁ LEGITIMAMENTE TEU, ENQUANTO A OUTREM FALTAR O NECESSÁRIO – Marat, Revolução Francesa” .

 

Obs: O livro “COLAPSO” mostra o que acontece quando desperdiçamos nossos recursos, ignoramos os sinais de nosso meio ambiente, nos reproduzimos rápido demais ou cortamos árvores em excesso e propõe o que fazer para evitar a destruição do mundo.




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